Gaza sofre 'a crise econômica mais grave' do mundo, alerta ONU
O território palestino da Faixa de Gaza atravessa atualmente "a crise econômica mais grave" do mundo, alertou nesta quinta-feira (24) a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).
"O colapso da economia de Gaza constitui a crise econômica mais grave já registrada no mundo e destrói décadas de desenvolvimento", declarou a jornalistas Pedro Manuel Moreno, secretário-geral interino da UNCTAD, por ocasião da publicação de um relatório.
"Hoje, o PIB per capita em Gaza equivale a 0,58 dólar (R$ 2,98) por pessoa por dia, 83% abaixo do nível, que já era muito baixo, registrado em 2022, enquanto os preços estão 274% acima do nível daquele ano", afirmou Moreno em Genebra. O ano de 2022 antecedeu o ataque do movimento islamista palestino Hamas contra Israel, em outubro de 2023.
A ofensiva lançada por Israel em resposta deslocou quase toda a população do território palestino, danificou ou destruiu a maioria dos edifícios e deixou mais de 73.300 mortos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas e cujos números são considerados confiáveis pela ONU.
Um frágil cessar-fogo entrou em vigor na Faixa de Gaza em outubro de 2025, mas sua economia está devastada.
Antes de outubro de 2023, "dois em cada três habitantes de Gaza viviam na pobreza. Hoje, toda a população de Gaza é afetada", explicou o chefe de coordenação da ajuda ao povo palestino da UNCTAD, Mutasim Elagraa.
"Uma situação que já era catastrófica se agravou consideravelmente", acrescentou Elagraa.
"Em Gaza, o setor habitacional sofreu os danos mais graves, estimados em 19 bilhões de dólares (R$ 97,7 bilhões) em 2025", afirmou. A atividade industrial e a produção agrícola recuaram 94%, enumerou.
Segundo Elagraa, apenas 1,5% das terras cultiváveis podem ser exploradas, o que "implica uma dependência total da ajuda alimentar humanitária".
- Uma destruição 'generalizada' -
O relatório documenta "uma destruição econômica generalizada".
"Centenas de milhares de empregos foram perdidos desde outubro de 2023, o que eliminou cerca de 2,8 bilhões de dólares (R$ 14,4 bilhões) em rendimentos do trabalho acumulados", afirma o documento.
Mais de 90% da população do território está desempregada, insiste a organização, que se baseia em dados do Banco Mundial e do Escritório Central Palestino de Estatística.
As operações militares de Israel destruíram 92% dos estabelecimentos econômicos, informou a UNCTAD, que calcula em 71,5 bilhões de dólares (R$ 367,6 bilhões) o valor necessário para a recuperação e a reconstrução.
"O valor pode aumentar se forem registrados mais danos", alertou.
O relatório também detalha "as restrições econômicas" na Cisjordânia, sobretudo o "acesso reduzido à terra e aos recursos naturais" devido à expansão dos assentamentos e "um aumento do deslocamento" forçado.
Além disso, as restrições impostas à circulação de pessoas e mercadorias se intensificaram em 2025.
A organização estima que a Cisjordânia precisará de vários anos, e Gaza, de mais de uma década, para recuperar o PIB anterior à crise.
A UNCTAD também enfatiza a crise orçamentária.
"O endividamento e os pagamentos atrasados do governo aumentaram", e "as restrições que afetam os bancos palestinos podem interromper o financiamento das importações de combustíveis, medicamentos e alimentos", alerta o texto.
Segundo o relatório, a grave deterioração se explica pelo aumento, por parte de Israel, da retenção de recursos palestinos, assim como pela queda das receitas orçamentárias provocada pela contração do PIB e pela falta de ajuda estrangeira.
Para enfrentar essa situação, o governo palestino toma empréstimos de grande volume em bancos locais e recorre ao fundo de aposentadorias palestino, acumulando atrasos nos pagamentos a fornecedores privados, acrescentou o relatório.
Caso essa situação persista, os territórios correm o risco de sofrer um colapso do sistema bancário, concluiu a ONU.
N.Flores--SFF